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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Português de Macau

Segundo li no semanário Sol, a Priberam acaba de lançar uma nova versão, a oitava, das suas já famosas ferramentas da língua portuguesa (FLiP), que uso há largos anos.

O curioso da notícia é a menção de que o produto contém a variante do português de Macau, coisa que eu desconhecia existir... Será o português pré-Acordo Ortográfico? É que a única palavra que vi até hoje ser "oficialmente" escrita de forma diferente em Portugal e em Macau é «logótipo», que aparece sempre no Boletim Oficial do território sem acento (por exemplo, aqui).

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Decretos-lei ou decretos-leis?

Na recente Lei n.º 13/2009, relativa ao «Regime jurídico de enquadramento das fontes normativas internas», encontramos duas formas de fazer o plural do substantivo «decreto-lei»: «decretos-lei», na alínea 6) do artigo 2.º, e «decretos-leis», na epígrafe e no proémio do artigo 8.º. Obviamente, uma delas estará errada e é de lamentar que o legislador tenha cometido este lapso de consistência.

Qual a forma correcta, então? De acordo com os dicionários que consultei, é a segunda: «decretos-leis».

Esse é também o entendimento do reputado Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, conforme se pode ler aqui.

Já agora, mais uma nota sobre inconsistências: não se percebe muito bem a razão de a alínea 1) deste artigo 8.º ter uma vírgula a seguir a «lei» e as alíneas seguintes não a terem a seguir a «regulamento administrativo independente» e a «regulamento administrativo complementar». Ou levava vírgula nos três casos ou não levava em nenhum, já que a estrutura das três frases é idêntica...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Código dos sinais de tempestade tropical

A propósito da passagem da tempestade tropical (vulgo, tufão) Goni por Macau, aqui fica o código dos sinais de aviso deste fenómeno meteorológico (*), assim como o sinal de ventos fortes de monção:

(*) E não metereológico (vem de «meteoro», não de «metereo»...), como os jornalistas da TDM insistem em dizer dia após dia, apesar de a palavra surgir correctamente redigida no quadro da previsão do tempo, no final do telejornal. Fica o reparo!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Nú ou nu, outra vez!

Já uma vez escrevi sobre isto, mas continuo a encontrar o mesmo erro vezes sem conta: «nu» escrito com acento. Desta feita, foi no telejornal de ontem da RTP (foto acima).

De uma vez por todas, «nu» não tem acento! Alguém escreve «tu» com acento? Ninguém! Então porquê esta mania de se escrever «nu» (ou «cu») com acento?

Já sei que a língua portuguesa não é fácil, mas isto é bastante básico. Basta pensarmos um pouco: o que é que o acento altera na pronúncia da palavra «nu»? Nada. Os acentos servem para que a palavra escrita corresponda à sua pronúncia. Ora, as palavras monossilábicas terminadas em «u» ou «us» não precisam do acento para nada. «Nu», «tu», «cu» ou «pus», por exemplo, pronunciar-se-iam sempre da mesma maneira com ou sem acento. Então para quê a insistência no dito cujo? Só para se escrever mal, está visto...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Contracto ou contrato?

O telejornal de ontem da RTP noticiava que uns quantos trabalhadores de uma fábrica haviam suspendido «os contractos de trabalho». Ora, com ou sem acordo ortográfico, o substantivo contrato não tem «c», apesar de ser originário do latim contractus.

Faço a observação, porque tenho encontrado este erro ortográfico com incómoda frequência, certamente por efeito do inglês contract.

Contracto, com «c», é outra coisa: é um adjectivo equivalente a contraído; que sofreu uma diminuição de volume ou de extensão; que sofreu uma contracção.

PS: falando em telejornais, o da TDM também de ontem noticiava que o imposto de consumo sobre o tabaco ia aumentar «para vinte cêntimos de pataca». A expressão foi proferida três vezes, pelo menos. E eu que pensava que a moeda local se dividia em cem avos...

domingo, 8 de março de 2009

Portugal insular e ultramarino

Havia um mapa semelhante a este na minha sala de aulas da escola primária. Lá estão Macau, Timor, a Índia Portuguesa e os territórios africanos, assim como as ilhas adjacentes (actuais regiões autónomas dos Açores e Madeira).

Curiosa é a ortografia usada, com a acentuação das palavras «editora», «Porto» e «Açores», o que se deve ao facto de o mapa ser anterior à revisão ortográfica de 1973.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Promoção muito estranha...

Estas não serão as imagens ideais para postar logo a seguir à fotografia de uma igreja, mas não resisto a fazê-lo... Parece que esta loja da Rua de Santo António, em Faro, decidiu iniciar ontem uma promoção bastante original: um soutien (ou sutiã, se se preferir a adaptação do estrangeirismo) e uma... queca? Umas cuecas, talvez?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Bom português?

A língua portuguesa está mesmo em crise! Esta imagem é da edição de ontem do programa «Bom Português», que passa a seguir ao telejornal das 20h30 da TDM. Então não é que tem um erro ortográfico? O tempo verbal «for», do verbo «ir», não tem qualquer acento! Aliás, este erro consta, até, do glossário de erros mais frequentes do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Quinta ou sexta-feira?

Os meus amigos do Ponto Final vão-me perdoar a divulgação, mas esta gralha é digna de nota: a edição de hoje do jornal surge identificada como sendo, simultaneamente, de quinta-feira, dia 29 de Janeiro, e de... sexta-feira, também 29! Um mimo para os coleccionadores!

PS: não obstante os meus reparos, este matutino continua a insistir, de quando em vez, na «inflacção»...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Esta inflação...

Não quero ser fundamentalista, mas não é a primeira vez que vejo este erro em grande destaque na nossa imprensa local: inflação com «cç». Por muito que os preços subam, ela escreve-se só com «ç» - mesmo sem acordo ortográfico...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Welcome to the Para-olympics!

Pelos vistos, nem os ingleses estão convencidos da bondade da designação Paralympics. Entidades ligadas à organização dos próximos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, têm optado por Para-olympics, como se pode ver pela notícia abaixo, alusiva ao logótipo da prova.

E também se encontram cartoons com Para-Olympics:

Até a WikiAnswers prefere paraolympics, ainda que sem o hífen:

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Pobre Olímpia

Nuno Lima Bastos
Jornal Tribuna de Macau
11 de Setembro de 2008

Na minha crónica da semana passada, protestei contra o uso da palavra «paralímpicos» por alguns órgãos de comunicação social de língua portuguesa em Macau. Resultado: o Ponto Final passou a escrever «paraolímpicos», o Jornal Tribuna de Macau optou, como eu, por «para-olímpicos» e o Hoje Macau manteve-se nos «paralímpicos», tal como a TDM. Nas ruas de Macau, são também omnipresentes as faixas de apoio aos «13.ºs Jogos Paralímpicos» (de Pequim).
Mas não é só aqui que esta singular palavra tem sido utilizada, infelizmente: no telejornal da RTP, é o que mais se ouve nestes dias. Até jornais nacionais de referência, como o Público, escrevem sobre os «Jogos Paralímpicos», não obstante as muitas reclamações dos seus leitores, incluindo eu próprio.
Não querendo ser fundamentalista, julgo que se entrou na generalização do erro. É um daqueles casos em que alguém começa a escrever mal e, de repente, muita gente entende que a palavra está correcta. «Uma mentira dita muitas vezes acaba por se tornar uma verdade», já dizia Joseph Goebbels (*), o líder da máquina de propaganda nazi. Temos é que ter cuidado, pois, qualquer dia, substantivos como «futebol» e «basquetebol» passam a escrever-se «futbol» e «basquetbol», só por derivarem dos britânicos «basketball» e «football»...
O desatino é tanto que, na sua nota de abertura de há três dias, o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (cá estou eu outra vez com ele, pois é) escreveu: «é verdade que a língua evidencia princípios à revelia da lógica. É verdade também que a língua, sendo um sistema, apresenta muitos sintomas de heterogeneidade. Mas escrever “paralímpico” em vez de “paraolímpico”, como está determinado por documento legal, já não cabe em nenhuma explicação de ordem linguística».
Contudo, o legislador português também não ajuda muito a resolver a contenda. Basta consultar meia dúzia de diplomas recentes ligados ao desporto. Por exemplo, nos termos do artigo 26.º da Lei de Bases do Desporto (Lei n.º 30/2004, de 21 de Julho), «ao Comité Paraolímpico de Portugal aplica-se, com as devidas adaptações, o disposto no artigo anterior relativamente aos praticantes desportivos portadores de deficiência e aos Jogos Paraolímpicos». No entanto, a norma equivalente da Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto (Lei n.º 5/2007, de 16 de Janeiro), que substituiu aquela, opta pelo «Comité Paralímpico de Portugal» (artigo 13.º). A Portaria n.º 393/97, de 17 de Junho, por sua vez, «concede prémios aos cidadãos com deficiência que se classifiquem num dos três primeiros lugares de provas dos jogos paraolímpicos ou de campeonatos do Mundo ou da Europa e da Taça do Mundo de Boccia». Já a versão portuguesa da Convenção Internacional contra a Dopagem no Desporto, aprovada pelo Decreto n.º 4-A/2007, de 20 de Março, contém designações como «Comité Paralímpico Nacional», «Comité Paralímpico Internacional» e «Jogos Paralímpicos». Uma salgalhada...
O que dizem os linguistas, então? A Associação de Informação Terminológica, presidida pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (uma associação privada sem fins lucrativos que tem como associados a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a Universidade de Lisboa e a Universidade Nova de Lisboa), emitiu em Janeiro de 2005, a pedido do Instituto do Desporto de Portugal, um parecer onde esclarece que, «em português, o termo em questão resulta de um empréstimo do termo inglês paralympics», que «constitui uma amálgama, tendo sido construído com base no cruzamento de para(plegic) + (o)lympics».
Depois, e sem querer reproduzir aqui o texto integral do documento (que pode ser consultado no meu blogue ou em http://www.ait.pt/index2.htm), é ali explicado que, «ao serem integradas em português (e noutras línguas), as palavras provenientes de outras línguas sofrem sempre adaptações, que podem ser conscientes ou inconscientes, e que podem consistir na simples alteração fonética da palavra, ou na sua adaptação morfológica, entre outras. Especialmente quando as palavras importadas de outras línguas constituem termos científicos e/ou técnicos, esses termos deveriam ser sempre alvo de intervenção consciente de alguma(s) entidade(s), de modo a não introduzir na língua termos que sejam violadores da sua estrutura (nomeadamente, morfológica) e que, por isso mesmo, sejam opacos para os seus utilizadores».
E continua, mais à frente: «nos últimos anos, tem surgido nesta língua um número crescente de amálgamas, mesmo em terminologias científicas e técnicas, resultantes, sobretudo, da importação de outras línguas, de termos construídos por este processo mas também de construção autóctone. (...) A amálgama pode ser construída (...) com sílabas iniciais da primeira palavra que se juntam à segunda palavra, que mantém a sua integridade (ex.: tele(fone) + móvel ou info(rmação) + alfabetização). Será mais consentâneo com a estrutura da língua portuguesa, portanto, que o termo em causa mantenha a vogal inicial o da palavra olímpico».
Assim, conclui aquele parecer que «a forma paralímpico é violadora da estrutura do português, não sendo transparente, pelo que se preconiza a sua substituição por uma forma em que a palavra olímpico mantenha a sua integridade (...). Por tudo isto, desaconselha-se vivamente o uso da forma paralímpico em documentação oficial e em discurso formal escrito de grande visibilidade».
A pedido da própria RTP, Maria Regina Rocha, licenciada em Filologia Românica, mestre em Ciências da Educação, professora na Escola Superior de Educação de Coimbra e membro do Conselho Consultivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, também emitiu recentemente um esclarecimento onde defende que «as palavras paraolimpíadas e paraolímpico deverão manter o o que constitui a sílaba inicial da palavra-base (paraolímpico, e não paralímpico)».
E clarifica: «quer se considere a palavra formada de paraplegics e Olympics, quer com o elemento grego para- (que exprime a ideia de aproximação, proximidade, presente, por exemplo, nas palavras paramédico e parapsicologia) e a palavra olímpico, essa vogal o deve manter-se. Suprimir a vogal o significa atentar contra a integridade semântica da palavra, formada a partir da palavra Olimpíadas. Olimpíadas e olímpico são palavras da família de Olimpo, a morada das divindades da mitologia grega, monte entre a Macedónia e a Tessália, e de Olímpia, cidade-berço dos mais famosos jogos da Antiguidade Clássica. Em síntese: não é recomendável a supressão da sílaba inicial o, pois o radical das palavras Olimpo e Olímpia contém-no. Estas palavras têm como sílaba inicial esse o, e não lim. O radical de uma palavra é o seu elemento essencial, portador do sentido primitivo e fundamental, e, portanto, é invariável. No caso em apreço, a supressão da sílaba o atenta contra a própria essência do berço das Olimpíadas, a cidade de Olímpia».
Podia continuar a citar mais alguns testemunhos técnicos que rebatem o uso da palavra «paralímpicos», mas dou-me por satisfeito com estes dois, até porque nunca encontrei um único texto com um mínimo de profundidade a sustentar o uso daquele termo. Os argumentos ficam-se sempre e apenas pela invocação da forma inglesa «paralympics» (como se isso justificasse, por si só, qualquer livre adaptação para o português) ou pela referência a «um processo de síncope, comum em português, que consiste na eliminação de um fonema no interior de uma palavra» (Pedro Mendes, FLiP, Setembro de 2004) – muito pouco para justificar tamanha monstruosidade!
Depois de tudo isto, optar entre «paraolímpicos» ou «para-olímpicos» (isto é, usar ou não o hífen) acaba por ser, para mim, uma questão menor. Segundo a Base XV do Acordo Ortográfico, o hífen será de manter «nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival [ainda prefiro «adjectival»...], numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido». Daí, provavelmente, a preferência do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa por «para-olímpicos». Contra o uso do hífen, argumenta-se, nomeadamente, que, nos termos da Base XVI do Acordo Ortográfico, o elemento para- pode também ser classificado como um «elemento não autónomo ou falso prefixo, de origem grega e latina», que dispensaria a hifenização em palavras como «paraolímpico».Deixo este debate entre «paraolímpicos» e «para-olímpicos» para os especialistas. Da minha parte, fico descansado desde que me poupem à aberração «paralímpicos»!

(*) Os meus agradecimentos ao meu amigo Severo Portela pelo reparo (em P.S. à sua crónica do Hoje Macau de 12 de Setembro). É no que dá escrever a contra-relógio...

P.S.: já depois de esta crónica ter sido publicada, foi com alegria que vi o pivot (ou «pivô», se preferirem) do telejornal de hoje da RTP pronunciar, finalmente, «jogos paraolímpicos» (ou «para-olímpicos» - o som é igual) e a designação aparecer assim redigida nas legendas das peças sobre a prova. Pena foi que a repórter dessas peças continuasse a falar em «paralímpicos»...
Aproveito, ainda, a oportunidade para acrescentar que o corrector ortográfico do Blogger (que uso antes de publicar qualquer posta) não reconhece nem «paralímpicos» nem «paraolímpicos»; apenas «para-olímpicos». É cá dos meus!
Entretanto, esta crónica foi referenciada em nota a um texto do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa de 16 do corrente, que pode ser consultado aqui)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Paralímpico, para-olímpico ou paraolímpico?

Porque a questão continua a dar muito que falar, reproduzo aqui o parecer da Associação de Informação Terminológica, que perfilha a opção resultante da aplicação do Acordo Ortográfico («paraolímpico») e rejeita liminarmente «paralímpico»:

Tendo sido solicitado, pelo Instituto do Desporto de Portugal, o parecer da Associação de Informação Terminológica, AiT, relativamente à forma de grafar o termo paralímpico / para-olímpico / paraolímpico, atestou-se o seguinte:

1. Paralímpico / para-olímpico / paraolímpico pode corresponder em português seja a um adjectivo, tal como em “Comité Paraolímpico Português”, seja a um nome, usado, nesse caso, no plural, tal como “os Paraolímpicos” em vez de “os Jogos Paraolímpicos”.

Paralímpico ou paraolímpico / para-olímpico?

2. Em português, o termo em questão resulta de um empréstimo do termo inglês paralympics (nome), do qual se terá construído também nessa língua um adjectivo, paralympic. De acordo com o Oxford English Dictionary, paralympics constitui uma amálgama, tendo sido construído com base no cruzamento de para(plegic) + (o)lympics. O termo tem, portanto, na sua origem a forma paralympics.

3. Ao serem integradas em português (e noutras línguas), as palavras provenientes de outras línguas sofrem sempre adaptações, que podem ser conscientes ou inconscientes, e que podem consistir na simples alteração fonética da palavra, ou na sua adaptação morfológica, entre outras. Especialmente quando as palavras importadas de outras línguas constituem termos científicos e/ou técnicos, esses termos deveriam ser sempre alvo de intervenção consciente de alguma(s) entidade(s), de modo a não introduzir na língua termos que sejam violadores da sua estrutura (nomeadamente, morfológica) e que, por isso mesmo, sejam opacos para os seus utilizadores. A busca da transparência deve, portanto, nortear todos aqueles que intervêm na integração consciente de empréstimos e na neologia planificada.

4. Apesar de o processo de amalgamação não ser um processo muito produtivo ao longo da história da língua portuguesa, a verdade é que, nos últimos anos, tem surgido nesta língua um número crescente de amálgamas, mesmo em terminologias científicas e técnicas, resultantes, sobretudo, da importação de outras línguas, de termos construídos por este processo mas também de construção autóctone. Embora não existam muitos estudos sobre este processo de construção de palavras para a língua portuguesa, é possível, no entanto, detectar algumas tendências: a amálgama pode ser construída não apenas com sílabas iniciais da primeira palavra e sílabas finais da segunda (ex.: infor(mação) + (auto)mática), mas também com sílabas iniciais da primeira palavra que se juntam à segunda palavra, que mantém a sua integridade (ex.: tele(fone) + móvel ou info(rmação) + alfabetização). Será mais consentâneo com a estrutura da língua portuguesa, portanto, que o termo em causa mantenha a vogal inicial o da palavra olímpico.

5. Apesar de se ter verificado que a forma paralímpico tem uma frequência de uso mais elevada do que o termo paraolímpico (numa consulta a páginas portuguesas de Internet por meio do motor de pesquisa Google, realizada em 19 de Janeiro de 2005, a forma paralímpico surgiu 6 050 vezes contra 246 da forma paraolímpico), a verdade é que paraolímpico se encontra já consagrado pela legislação portuguesa, no acto de nomear oficialmente o Comité Paraolímpico Português, facto que não pode deixar de ser tomado em consideração.

6. Dado o que foi dito em 3., do ponto de vista linguístico, a forma paralímpico é violadora da estrutura do português, não sendo transparente, pelo que se preconiza a sua substituição por uma forma em que a palavra olímpico mantenha a sua integridade. Além disso, no ponto 4., demonstrou-se que a forma paralímpico é também violadora daquilo que já se encontra consagrado na Lei Portuguesa.

Por tudo isto, desaconselha-se vivamente o uso da forma paralímpico em documentação oficial e em discurso formal escrito de grande visibilidade.

Para-olímpico ou paraolímpico?

7. Para defender o emprego do hífen na forma paraolímpico, poderá argumentar que, tendo em conta o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, se preconiza o uso do hífen “nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido” (Base XV). Terá sido essa a razão que levou o lexicógrafo a grafar para-olímpico no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (vulgo, Dicionário da Academia).

8. Dois argumentos, no entanto, podem ser aduzidos contra esta posição:

a) Em primeiro lugar, nos casos apresentados nessa Base XV, todos os pretensos exemplos de formas reduzidas da primeira palavra são elementos acentuados graficamente (és-sueste) ou elementos que terminam em vogal de ligação o (aberto), a saber, afro-asiático, afro-luso-brasileiro, luso-brasileiro e primo-infeção; ora, tendo em atenção que o elemento para-, resultante da truncação de paraplégico, apresenta acento secundário em relação a olímpico, além de que não apresenta qualquer vogal de ligação, o (aberto) ou i, poder-se-á argumentar que este elemento não é da mesma natureza daqueles que figuram como exemplos na Base XV do Acordo e que, por isso, a obrigatoriedade do uso do hífen no termo em apreço não é clara;

b) Em segundo lugar, ainda seguindo o texto do Acordo, o elemento para- pode também ser classificado como um “elemento não autónomo ou falso prefixo, de origem grega e latina” (Base XVI), não sendo necessário, neste caso, o emprego do hífen em paraolímpico.

9. Dado o facto de o termo paraolímpico vir a ter grande notoriedade e fazer parte de diferentes denominações de organismos oficiais com grande visibilidade, é legítimo que, dada a alternativa, se defenda o emprego de uma forma que, sendo gramatical e transparente (como ficou demonstrado na primeira parte deste parecer), seja mais curta e de aspecto gráfico mais simples, pelo que se justifica a grafia do termo sem hífen. Se aos argumentos apresentados em 8., acrescentarmos, então, os factores sociolinguístico e pragmático, verificamos que a forma paraolímpico é preferível à forma equivalente com hífen.

Por tudo o que se apresentou, a AiT recomenda que a forma desejável para grafar o termo em análise é, sem margem para dúvidas, a forma paraolímpico.

Margarita Correia
Janeiro de 2005

PS: pessoalmente, prefiro a orientação da Academia das Ciências de Lisboa no sentido de se dever escrever «para-olímpico». Seja como for, numa coisa estamos todos de acordo: «paralímpico», nunca!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Olímpicos erros

Nuno Lima Bastos
4 de Setembro de 2008

1. A edição de ontem do jornal Ponto Final continha uma notícia com o seguinte subtítulo: «Pequim 2008 – Oitava missão lusa aos paralímpicos». Esta expressão, assim como a designação completa «Jogos Paralímpicos», também têm sido profusamente mencionadas nos telejornais da TDM dos últimos dias.
Ora, como tive já oportunidade de alertar no meu blogue, o termo correcto em português europeu é «para-olímpicos».
O conceituado Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, define o adjectivo «para-olímpico» como o «que diz respeito aos jogos destinados a atletas deficientes, realizados de quatro em quatro anos, após os jogos olímpicos e no mesmo local destes». Como substantivo, «para-olímpico» é o «atleta deficiente que participa nos jogos para-olímpicos».
O excelente Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, que nunca me canso de recomendar aos tradutores com quem lido na minha vida profissional, esclarece mesmo que «“paralímpico” não aparece em nenhum dicionário de referência», sendo «pouco provável» a ligação do prefixo «para» com «olímpico» suprimindo o «o-» deste.
Mesmo os nossos amigos brasileiros, que tanto gostam de “dar voltas” à língua de Camões, não escrevem «paralímpico», mas «paraolímpico», fruto da sua opção pela forma não hifenizada nas palavras resultantes de prefixação (como é aqui o caso). E é também isso que resulta da aplicação das regras do controverso Acordo Ortográfico.
Pelo que consegui apurar, só Angola constituirá (infeliz) excepção, dado que parece existir um Comité Paralímpico Angolano. Resta saber se por descuido ou por convicção...

2. Ainda em matéria de erros ortográficos na área desportiva, perdi já a conta ao número de vezes que encontrei o plural dos adjectivos «júnior» e «sénior» escrito como «júniores» e «séniores». Nada mais errado! Ambas as palavras perdem o acento no plural, pelo que se escrevem «juniores» e «seniores», devendo ser pronunciadas em conformidade.

3. Outro erro crasso muito frequente – no desporto e fora dele – é redigir-se o substantivo «rubrica» com acento. Muita gente parece estar convicta da existência de duas palavras distintas, «rubrica» e «rúbrica», com diferentes significados: uma como sinónima de «assinatura abreviada»; a outra de «item», «assunto», etc. Em bom rigor, só existe «rubrica», sem acento, abarcando todos esses sentidos.

4. Não menos comum é a utilização da redundância «há n tempo atrás». Como, uma vez mais, explica o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, nas expressões «há dias», «há meses», «há algum tempo», «a simples presença do verbo “haver” dispensa qualquer palavra que venha denotar tempo decorrido». Por isso, afirmar «há cinco dias atrás» é um pleonasmo a evitar!

5. Outro erro típico: quando o Rei de Espanha se dirigiu ao anormal que governa a Venezuela, perguntou-lhe «porque não te calas» ou «por que não te calas»? Neste caso, está correcta a primeira opção, visto que «porque» surge aqui como advérbio interrogativo: «nestas orações interrogativas directas, [porque] é um advérbio, porque está ligado a um verbo» e, «como se trata de um advérbio, é só uma palavra», pode ler-se, de novo, no Ciberdúvidas.
No entanto – e aqui é que costumam surgir os problemas –, «se fosse “por que razão não te calas?”, já não seria usado um advérbio interrogativo, mas a preposição “por” e o pronome “que” (portanto, duas palavras), visto seguir-se o substantivo “razão”, tendo aqui o pronome “que” o significado de “qual”», continua o Ciberdúvidas.
Sintetizando, e pondo as coisas em linguagem simples, o habitual será utilizar-se «por que» na pergunta e «porque» na resposta. Na forma interrogativa, a excepção acontece apenas quando surge um verbo logo a seguir, caso em que a questão é colocada com o advérbio «porque».

6. Finalmente (por hoje...), a problemática da colocação do «se» reflexo: por exemplo, ainda no domingo passado, a propósito da crise política que se vive na Tailândia, ouvi uma jornalista relatar no telejornal da TDM que «quatrocentos militares foram chamados para juntarem-se às forças policiais».
Ora, ensina, ainda e sempre, o fiável Ciberdúvidas que, «sendo o “se” reflexo objecto directo do verbo, a sua posição normal, no português europeu, é enclítica (depois do verbo)». «Existem, todavia, casos em que não é aceitável, na norma culta, esta colocação», devendo, então, o pronome ser colocado em situação proclítica (antes do verbo). Sem pretensões de exaustão, avanço alguns exemplos típicos (que podem ser consultados, nomeadamente, aqui): quando o verbo é precedido de palavra negativa («nunca se lavou» ou «não se penteou»), nas orações iniciadas por pronomes ou advérbios interrogativos («quem se levantou a meio da noite?»), nas orações iniciadas por palavras exclamativas ou nas que exprimem desejo («que se vista rapidamente!» ou «Deus se compadeça dos vencidos!»), nas orações iniciadas por «quando» («quando se levantou, era noite escura») e, como adverte o corrector ortográfico do meu computador, «em geral (...), nas orações subordinadas introduzidas por preposições ou locuções preposicionais, tais como “após”, “até”, “por”, “para”, “conforme”, “ao contrário de”, “antes de”, “além de”, etc.».
Assim, está visto que a frase correcta (e que soa francamente melhor) seria «quatrocentos militares foram chamados para se juntarem às forças policiais». De acordo?

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Paralímpicos ou para-olímpicos?

Nos últimos dias, os jornalistas da TDM têm falado muito em Jogos Paralímpicos e atletas paralímpicos, certamente influenciados pelo termo inglês paralympics. Sucede que o termo correcto em português é para-olímpicos.

No excelente Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, publicado pela Editorial Verbo em 2001, pode ler-se:

Para-olímpico, a. Que diz respeito aos jogos destinados a atletas deficientes, realizados de quatro em quatro anos, após os jogos olímpicos e no mesmo local destes. Atleta deficiente que participa nos jogos para-olímpicos.

Jogos para-olímpicos. Encontro desportivo em que os atletas são deficientes, realizado de quatro em quatro anos, após os jogos olímpicos e no mesmo local destes.

PS: aproveito para esclarecer quem assistiu ao telejornal da TDM de domingo passado que a cidade de Saint-Paul, no Minnesota, E.U.A., local escolhido para a realização da Convenção Republicana, não fica a dois, mas a dois mil quilómetros da rota do furacão Gustav na Luisiana (à atenção da simpática Lina Ferreira). E, já agora, esclareço também que o futebolista David Villa, do Valência, não integrou a selecção campeã do mundo, Itália, mas a campeã da Europa, Espanha (esta é à atenção do meu amigo Vítor Rebelo). Espero que não me levem a mal o reparo...

domingo, 13 de julho de 2008

Revista Macau: açoreana ou açoriana?

O último número da Revista Macau (Junho de 2008) traz uma interessante reportagem sobre Paula Ling, conhecida advogada de Macau e deputada à Assembleia Nacional Popular (ou Assembleia Popular Nacional, como está escrito na revista), que cresceu nos Açores. A capa da publicação fala, por isso, em «uma açoreana no Palácio do Povo» (com "e").

No título da peça, na página cinco, já surge «uma "açoriana" no Palácio do Povo» (com "i").

Em que ficamos, então? Segundo o corrector ortográfico do meu computador e os meus dicionários, é mesmo «açoriana» que se escreve (com "i"). O erro deve-se, certamente, ao facto de a palavra-raiz se escrever com "e" (Açores). Aqui fica o reparo (que é bem intencionado e em nada afecta a óptima impressão que tenho da Revista Macau, para que não fiquem dúvidas).

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Público: nú ou nu?

A edição online do jornal Público de anteontem apresentava uma notícia com um título que continha um erro ortográfico muito frequente e que também já tenho visto por diversas vezes na imprensa de Macau: «nu» com acento.

Para quem está atento e dá importância a estas coisas (e imagine-se quantas pessoas poderiam ser induzidas em erro ao lerem uma fonte credível como este diário), as noticias da versão electrónica do Público permitem diversas interactividades aos leitores; entre elas, apontar-lhes erros, sejam de redacção ou de conteúdo. Para tanto, basta clicar no ponto de exclamação assinalado na imagem de baixo e indicar o erro na janela que se abre para o efeito. Foi precisamente isso que fiz neste caso et voilà: uma hora depois, o erro estava corrigido!

Faça, pois, o mesmo: use o ponto de exclamação à vontade! O Público e os demais leitores agradecem, certamente!